Um dos grandes sonhos do anarco-sindicalismo era a derrubada do Estado, do Poder e do capitalismo pela Greve Geral da classe trabalhadora, que seria o único instrumento revolucionário libertário legítimo – já que a revolução armada (a única, até hoje, historicamente ocorrida) ou a eventual mudança de regime pela via eleitoral (da qual a eleição de Allende, no Chile, nos anos 1970 foi uma experiência inédita e não repetida, frustrada pelo golpe ditatorial que derrubou-o) constituem-se em assalto ao poder, preservando o Estado e o fundamento autoritário que mantém a sociedade de classes.
Tal greve, entretanto, parece, por princípio, algo contraditório e ineficaz. Pois toda a paralisação de trabalho pressupõe a pressão sobre a classe proprietária a fim de forçá-la a ceder às reivindicações da peonada, o que implica, inapelavelmente, após o seu fim, e atingido o objetivo, na continuidade da existência de patrões e escravos assalariados, ainda que aos últimos sejam garantidos alguns avanços sócio-econômicos, arrancados à força da classe que continua a dominar a maioria trabalhadora.
Uma greve para decretar a extinção da burguesia e do poder institucionalizado que administra suas disputas internas e sistematiza a dominação dos trabalhadores (o Estado e suas instituições formais, as leis, e culturais, a ética e as cartilhas de comportamento e pensamento padronizados), é portanto, algo terrivelmente estranho!
Pois se a grande maioria, os que movimentam o mundo com seu trabalho quotidiano, tiver tomado consciência de que, além de sua condição de “escravos” da classe “proprietária”, o status patronal desta só existe porque seus subjugados nele crêem, e que o mando de patrões e chefes nada cria (mas é o trabalho humano dos dominados o responsável pela produção dos meios materiais e intelelectuais de sobrevivência e atendimento das mais diversas necessidades), basta que os trabalhadores mandem à merda seus algozes, passando a administrar eles mesmos o seu trabalho, e a se apropriar de seu produto, ao invés de permitir que este vá inchar os fofos bolsos burgueses!
Não há, nesta hipótese, nenhuma necessidade de “convencer” a burguesia a aceitar a revogação de seu poder social e a instituição da auto-gestão coletiva dos meios de produção. E a revolução, neste caso, se dará, fundamentalmente, antes de mais nada, no interior das consciências livres e questionadoras, restando à greve geral, à gargalhada gaiata ou ao peido coletivo da classe dominada, o mero caráter de ritual concretizador do que já tiver se estabelecido no âmago dos corpos, mentes, da alma e das emoções dos escravos assalariados auto-libertados, rebelados e conscientes!
Haverá quem, com toda razão, julgue que o anarquista aqui caiu num ataque de utopia infantil e acredita em contos de fadas. Afinal contra a rebeldia revolucionária ,se manifeste ela na greve geral, na desobediência mais ou menos generalizada às “ordens” e regras de chefetes e patrões e na auto-organização da peonada (que corre o risco de recriar o domínio e a exploração se não estiver alicerçada no ânimo libertário interno da grande maioria), pode ser facilmente utilizada a ação das forças repressoras de que o Estado formal se arroga o monopólio, como polícia e forças armadas, e derrotada a revolução. Mas a pura verdade é que a massa de tais forças é composta de peões, de trabalhadores tão explorados e submetidos quanto os demais! A condição da existência da sociedade de classes, e do Estado (o poder, a força bruta dos senhores institucionalizada e tornada abstrata e extra-humana, “divina”, as deusas leis, pretensamente filhas da vontade popular nas “democracias”), se prova, mesmo nas circunstâncias de repressão armada, é a aceitação do explorado, que antes de ser “submetido” pelos senhores, escraviza-se ele próprio em sua mente. Pois são os próprios trabalhadores que, na forma de militares, policiais, gerentes, chefes, fiscais, monitores, pais, clérigos e “autoridades” formais ou sociais de todo tipo servem de braço executor da vontade de domínio dos burgueses. E não há exército capaz de se opor, por maior força e competência que possua, à grande maioria explorada, se esta, consciente e auto-determinada, se rebelar contra sua condição.
A velha idéia da greve geral libertadora perde, neste caso seu sentido e cede à mais óbvia das realidades realmente revolucionárias, ainda que na forma metafórica: a “greve permanente”. Se quisermos usufruir do prazer e do conforto de nossos corpos e mentes, de nossas emoções e do diálogo e relação mútuo e enriquecedor no seio da espécie humana, a primeira e fundamental condição é nos rebelarmos contra o trabalho compulsório, exercido sob as patas concretas e institucionais de patrões e agentes políticos formais. É jogar a ética do altruísmo auto-flagelante e da submissão barranco abaixo e decretar greve permanente contra exploradores e “autoridades”, chefes e controladores de todo tipo. É não trabalhar, nem pensar, dormir, fuder e organizar nossas vidas em torno das prioridades de sádicos, vadios e “refinados” patrões e administradores. Mas amar, viver, raciocinar, sentir e trabalhar por nós e para nós próprios, na interação enriquecedora e prazerosa do aconchego e da divergência livre e mútua.
Pois o “outro” pode ser mais forte e tirar nossas roupas, armas, ferramentas, nossas casas e até nossa vida! Mas, por mais condicionados psicologicamente e mistificados que sejamos, a nossa capacidade de pensamento, de sentir, raciocinar, questionar e decidir é só nossa, habita o interior de nossos corpos, não há poder capaz de nos subtraí-las e é só pela nossa colaboração semi-consciente que nos fazemos escravos de interesses que não são os nossos, de regras que não críamos, nem deliberamos, mas nos foram impostas no proveito dos dominadores, e que, assim como as aceitamos, podemos rechaçar a qualquer momento! E se não o fazemos, mantendo o atual estado de coisas, é muito mais pelo nosso empenho em oprimir e vigiar uns aos outros, no estrito cumprimento da vontade dos senhores exploradores, do que pelo poder imaginário de que eles dispõem.
Ubirajara Passos